terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Lain — um nó no cérebro

Em 1999 estreava nos cinemas o projeto mais ambicioso dos irmãos Wachowski: The Matrix, mais do que uma ficção científica qualquer, trava-se de um filme de proporções épicas que conseguiu fundir de modo eficaz temas filosóficos e efeitos visuais inovadores — posteriormente parodiados e copiados à exaustão; a despeito de suas duas sequências desnecessárias-mas-até-que-interessantes, tornou-se um marco no cinema, permanecendo assim no imaginário coletivo. Não pude conferi-lo na estreia (ter 6 anos na época não ajudava), mas logo tornou-se um de meus filmes favoritos. Curiosamente foi alvo de uma questão da prova do último vestibular de inverno da UEM, que o relacionou com a filosofia de Platão. Apesar de minha admiração pela obra, não é dela que se trata o post, mas de uma de suas desconhecidas influências lançada um ano antes: Serial Experiments Lain.

Composto por 13 episódios, o anime se passa num ambiente urbano de tom melancólico, onde um estranho chiado constante permeia as sombras e alguma coisa parece estar errada. Seu enredo gira em torno de Lain Iwakura, uma adolescente de 14 anos que vive com seus pais e a irmã mais velha; introvertida, pouco se relaciona com sua família e amigas com quem estuda. Logo no primeiro episódio, ao entrar na sala de aula, lhe perguntam se também havia recebido um e-mail de uma garota do colégio que tinha se suicidado pulando de um prédio, pois muitos colegas o receberam depois do ocorrido — acreditavam ser uma brincadeira de mau gosto por parte de alguém. Ela não sabia, nem utilizava seu computador; ao chegar em casa decide ligá-lo e percebe que recebera o tal e-mail, no qual a garota lhe diz que não morreu, mas apenas abandonou o corpo.

A partir daí, incentivada pelo pai, Lain desenvolve um grande fascínio por computadores e pela Wired (uma forma melhorada da Internet), onde permanece cada vez mais imersa. Em algum momento ela descobre que não é quem pensa ser, tampouco sua família; oscilando entre a realidade e a virtualidade, o físico e o metafísico, a garotinha em busca de si acaba por nos guiar numa viagem tão curiosa quanto insólita. A história é carregada de referências filosóficas e trata de diversos assuntos, desde a interação das pessoas com a tecnologia até a existência e natureza de Deus (contendo inclusive um diálogo digno de Dostoiévski mais pro final da série sobre isso), além de enfatizar a velha questão que, de alguma forma, estamos todos conectados — o que todo mundo já deve ter visto em algum lugar.

Apesar de sua originalidade, SEL não teve tanta repercussão quanto outras animações do gênero, como já tinham previsto seus produtores, que o consideravam um projeto arriscado. Eu havia conferido a série há uns quatro anos e, diante do ócio proporcionado pelas férias, acabei por me deparar com ela novamente; decidi rever o primeiro episódio pra relembrar — não me contive e logo revi todos. É claro que não os assisti como antes — considerando o lapso temporal isso não seria possível nem que eu quisesse, como já dizia um filósofo — e me surpreendi (e compreendi!) muito mais dessa vez; interessante o quanto a nossa percepção das coisas muda com o passar do tempo. De qualquer forma, Lain continua sendo um nó difícil de desembaraçar, onde muitas informações são jogadas e pouco é explicado, restando ao espectador ligar os pontos — o que ajuda a tornar essa animação tão instigante.

Nenhum comentário:

Postar um comentário