terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Coisas que não se discute, arte e relatividade

Você já esteve numa situação em que ao ouvir alguém dizendo que política, religião e futebol não se discute, subitamente desejou a própria morte? Pois é, eu te entendo. Ou, caso você seja uma pessoa mais esclarecida e tenha desejado a morte do infeliz que repetiu o clichê, esse texto lhe será ainda mais interessante.

Eventualmente me deparo com tal frase onde a sabedoria popular demonstra sua torpeza; tento não demonstrar muito desprezo pelo bem da sociabilidade, mas não consigo deixar de me abismar com tamanho bullshit. Também é sabido popularmente que o pior analfabeto é o analfabeto político — um termo que bem descreve alguém que ainda pensa haver coisas que não devem ser discutidas, posição que reflete, sobretudo, grande ignorância histórica, sociológica e filosófica. Afinal, num mundo naturalmente contencioso e repleto de contradições, é no mínimo estranho algumas pessoas acharem que o potencial desconforto que certas discussões podem gerar ainda sirva de desculpa para a estagnação reflexiva.

Mas para tudo na vida cada um tem seu gosto e sua opinião, não é mesmo? Qual a necessidade em se discutir então?

Acontece que, por mais receio que algumas pessoas possam ter em admitir, nem tudo é relativo: se tenho uma caneca em cima de minha mesa, ela continuará sobre a mesa independente da posição em que eu a olhe; quero dizer, a percepção do sujeito  suas opiniões e gostos  não altera a realidade em si. Nem mesmo o valor da arte parte somente da subjetividade de quem a aprecia, o que explica fenômenos como prêmios literários ou para o cinema, onde a arte é valorada através de critérios objetivos. Dessa forma, não seria muito difícil, por exemplo, defender a tese de que os livros de Aldous Huxley são melhores do que os da série Harry Potter.

É perfeitamente compreensível que na vida primeiro nós gostamos de alguma coisa, nos apegamos a determinada ideia  seja lá por que  e depois tentamos justificar com critérios objetivos nosso gosto. Ou seja, primeiro gostamos subjetivamente, depois tentamos validar objetivamente. E não há qualquer problema nisso, a não ser quando se esquece que há uma linha nada tênue que separa o direito de se ter uma opinião sobre algo à possibilidade de tal pensamento encontrar respaldo na realidade. Afinal, nenhuma ideia merece respeito inerente e absolutamente tudo deve ser questionado e discutido, o que é perfeitamente saudável e só tem a trazer benefícios.


Não raro vejo pessoas elevarem seus pontos de vista a verdades absolutas simplesmente por se tratar de seus pontos de vista. Mais de uma vez já passei por uma situação inusitada que bem ilustra tal confusão no que se refere a gosto musical: no meio universitário de meu cotidiano posso notar uma feliz preferência pelo bom e velho Rock n' Roll. Contudo, em conversas aleatórias algumas pessoas já me disseram gostar de sertanejo universitário, mas só em festas  destacam. Ora, até entendo que a pessoa possa ter se divertido nas festas em que esse “estilo musical” estava tocando, o que não significa que ela necessariamente goste das músicas  e nem que essas tenham qualidade. Diante dessa confusão, ao ouvir críticas sobre tal estilo ser musicalmente ruim, a pessoa se sente ofendida, não percebe que assim como é possível dar risada vendo um filme como American Pie sem deixar de ter consciência que se trata apenas de mais um besteirol do cinema americano, é ilógico e até hipócrita preencher com qualidades imaginárias a lacuna de uma forma de arte/entretenimento só porque você a consome.

6 comentários:

  1. Interessante que dificilmente ouvimos essa frase (política, religião e futebol não se discute) sem ser seguida de uma grande discussão religiosa, política ou coisa que valha. hehe

    ResponderExcluir
  2. HAHAHAHAHA pois é, essas discussões costumam ser divertidas...

    ResponderExcluir
  3. Será mesmo que a realidade não é alterada pela percepção do sujeito? A caneca está sobre a mesa ou a mesa está sob a caneca?

    ResponderExcluir
  4. A percepção da realidade e as relações sujeito-objeto são questões amplamente tratadas na Filosofia, sobretudo na Teoria do Conhecimento e também na Filosofia da Ciência. Particularmente tendo ao Ceticismo quanto a possibilidade do conhecimento, para o qual não é possível conhecermos a realidade em si, senão vagas representações desta. Contudo, há diversas correntes filosóficas e posicionamentos distintos sobre o assunto, de modo que meu objetivo ao mencionar minha posição sobre isso no post não era de desenvolvê-la, mas utilizá-la como metáfora para a questão das discussões em que há posicionamentos distintos sobre determinado assunto - este seria estático, como a realidade; e as opiniões divergentes equivaleriam às percepções dos sujeitos.

    Quanto a mesa e a caneca, difícil saber... quem sabe as duas coisas!

    ResponderExcluir
  5. A percepção do sujeito é algo que cada vez mais deixa de existir. O sujeito, homem, hoje é condicionado por uma série de fatores que deixam extremamente prejudicada sua capacidade de assimilar a realidade. Mesmo em um ambiente de alta cultura, como a universidade, vemos sujeitos alienados e sem qualquer fagulha de inteligência emocional própria, tão somente aquela criada pelo meio.
    Por isso, talvez, a realidade dele seja diferente da sua e por isso eu disse que discussões com essa carga de abstração não possam ser travadas com muitos interlocutores. Talvez, para ele, a caneca esteja embaixo da mesa se isso se propuser a validar sua opinião de que a música do Luan Santana seja boa. Entende?
    O que eu quero dizer é que essa realidade imutável da qual você se utilizou do exemplo da mesa e caneca talvez não exista para aquela pessoa. Ele enxerga a realidade de uma forma diferente da sua. E, nessa ótica, é impossível que você tenha uma discussão de argumentos, já que ela sempre tenderá a entrar no campo da paixão, contra a qual não há argumentos…
    Em suma, acredito que você esteja certo quanto ao erro da frase "Não discuta política, futebol ou religião" mas não acredito que ela se valide entre todos.
    Abraços Maurílio e curti nosso pequeno debate…

    ResponderExcluir
  6. Entendi sim, sua posição tende ao relativismo, mas realmente faz todo o sentido: se um sujeito "quiser" ver a caneca embaixo da mesa essa será a realidade dele, independente de como as coisas de fato sejam.

    Concordo que não se pode discutir qualquer assunto com qualquer pessoa, portanto o jargão popular demonstra-se válido de acordo com a situação.

    De qualquer forma, nesse espaço toda manifestação de pensamentos é bem vinda, sinta-se a vontade pra comentar quando quiser, Kachaço; também curti a discussão! Abraço!

    ResponderExcluir