domingo, 25 de março de 2012

Hermenêutica de balada


— Me pergunto como vocês mulheres podem ser tão confusas, não consigo mesmo entender...
— Ora, não somos apenas nós! Mas por que diz isso?
— Ah, uma garota sem noção me fez pensar...
— O que aconteceu?
— Eu tinha ido ver aquela banda que falei, e percebi que atrás de onde estavam tocando as paredes eram revestidas com espelhos, o que me chamou atenção e decidi comentar isso com essa garota, que estava ao lado. Disse algo sobre como os espelhos davam a impressão de estender o ambiente. Ela complementou e falou alguma coisa sobre elevadores, não entendi muito bem, a música alta não ajudava, e a conversa ficou confusa, até que ela me olhou complacente e com um leve sorriso disse: “nem rola”.
— Olha, você é um cara inteligente e tem sensibilidade, sei que poderia ter pensado em algo melhor...
— Você não entendeu... Eu não tinha intenção de demonstrar qualquer interesse naquela pessoa, simplesmente estava lá, tão tranquilo quanto alguém pode estar, curtindo o som quando me ocorreu esse insight e quis passar a ideia adiante, o tipo de coisa que as pessoas postariam no twitter, sabe.
— Entendo... Como você reagiu?
— Fiquei pensando o que é que afinal nem rola e demorei alguns instantes pra perceber sua interpretação equivocada. Se eu tivesse algum interesse nela e ouvisse a mesma coisa seria doloroso, mas justo. Já ouvir um nem rola completamente aleatório assim não foi nada legal.
— Acho que houve um problema de contexto, se dissesse a mesma coisa num outro lugar... tipo uma loja de espelhos, provavelmente não seria surpreendido com a mesma resposta.
— Mas isso tudo é muito confuso, precisamos de algo que nos ajude a entender certas atitudes pra sairmos desse caos, talvez uma nova ciência... uma Hermenêutica de baladas!
— Será que precisamos chegar a esse ponto?
— Os juristas fazem uso de sua Hermenêutica para a interpretação de textos normativos, os religiosos utilizam a sua para interpretar seus textos safados sagrados, nada mais justo que expandirmos essa ciência para compreendermos melhor todo o nonsense que é falado nas baladas. Você sabe como esses ambientes são nebulosos, né? E com isso diminuiria as chances de alguém receber uma resposta tão inconveniente quanto a que tive que ouvir.
— Quem mandou falar dos espelhos...
— Não tenho culpa se ela ainda não percebeu que, como já dizia Freud: às vezes um charuto é apenas um charuto.

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