domingo, 29 de abril de 2012

O que é fazer a coisa certa? Dilemas filosóficos e o futuro da Educação


No livro O Caso dos Exploradores de Cavernas, de Lon Fuller, durante uma expedição, cinco pessoas acabam sendo soterradas numa caverna. Considerando a demora do resgate e a possibilidade de morrerem por inanição, um deles sugere que sorteiem alguém para ser sacrificado, servindo de alimento aos demais — ironicamente o sorteado foi o próprio infeliz quem deu a ideia. Depois de resgatados, os quatro sobreviventes vão a julgamento por homicídio. Tal obra costuma ser utilizada em matérias introdutórias do curso de Direito, pois apresenta aos estudantes inúmeras questões morais e interpretativas, além de remeter à colisão de normas jurídicas e questionar a legitimidade destas. Lembro-me de ter lido esse livro no 1º ano do curso e do debate que houve na sala, que foi dividida em grupos, cada qual tendo de elaborar argumentos defendendo a absolvição ou condenação dos réus fictícios.

Dilemas morais como os suscitados por essa história são amplamente discutidos num dos cursos mais populares da Universidade de Harvard: Justice: What's The Right Thing To Do — já frequentado por mais de 15 mil alunos e dividido em 12 aulas. É o primeiro curso da universidade a ser transmitido na TV aberta americana e completamente disponibilizado online. Num anfiteatro com capacidade para mil pessoas, o curso é ministrado pelo filósofo político (fenômeno de audiência e venda de livros) Michael Sandel, que instiga seus expectadores a refletir sobre vários dilemas filosóficos à luz das ideias de diversos pensadores — como Aristóteles, Kant, John Rawls — a partir de situações práticas e hipotéticas que vão sendo lançadas. Indagando seus alunos com perguntas do tipo: “seria justificável torturar alguém para obter uma informação que salvaria a vida de muitas pessoas inocentes?”, “É possível medir o prazer?” Sandel discute o Utilitarismo; ou “se ao fazer uma venda um comerciante recebe troco a mais e o devolve simplesmente por temer a possibilidade de sua loja ficar com má reputação, sua atitude teve valor moral?”, para analisar a filosofia moral kantiana. Os alunos apresentam respostas, que por vezes se contradizem e vão sendo incorporadas na exposição da aula, de modo que todos acompanham o debate e seguem o raciocínio exposto. Discute-se sobre justiça e igualdade, democracia e liberdade, mas afinal, o que é fazer a coisa certa? Fazer a coisa certa é sempre a coisa certa a se fazer? É claro que o curso não oferece respostas conclusivas às grandes perguntas, mas com certeza funciona como um poderoso instrumento de reflexão.

A disponibilização de cursos completos online como este e a popularização da internet levantam alarmantes questões sobre o futuro da educação: sendo tecnologicamente possível a qualquer pessoa assistir às melhores aulas das melhores Instituições de ensino, até que ponto um curso presencial faz-se necessário? Seria viável permitir que alunos não presenciais frequentassem cursos virtualmente? Como o modelo tradicional de ensino deve se adaptar às novas tecnologias? Nesse ponto muitas Universidades americanas têm se esforçado, como a Yale University, que disponibiliza amplamente aulas e conteúdo em seu site, bem como a University of California, Berkeley, entre outras conceituadas. No Brasil temos como exemplo a TV Justiça, que promove aulas, debates, transmite sessões plenárias na íntegra dos Tribunais e conta com seu canal no YouTube. Embora nas Universidades brasileiras a utilização dessas tecnologias ainda não seja comum, as incríveis mais de 3 milhões de visualizações do primeiro episódio do curso Justice: What's The Right Thing To Do — apesar de nem chegar perto de virais como o Nyan Cat e suas mais de 70 milhões de visualizações (afinal, é claro que um gato com corpo de torrada que voa através do espaço infinito deixando um rastro de arco-íris é muito mais interessante do que qualquer discussão filosófica poderia ser) — indicam que isso seja uma tendência no modelo de educação em todo o mundo.

Um comentário:

  1. O homem não é nada além daquilo que a educação faz dele – Kant
    Com o perdão da palavra mas nós estamos nadando na merda é melhor ir contra a correnteza. Chegar a uma margem. A educação sempre esteve em crise, fica a reflexão do que absorver ou não.

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