domingo, 9 de setembro de 2012

Jogador nº 1 e a utopia nerd virtual

O ser humano é uma porcaria na maior parte do tempo. Os videogames são a única coisa que tornam a vida suportável.

Almanaque de Anorak,
Capítulo 91, versos 1-2

Em seu romance de estreia, Ernest Cline nos apresenta uma interessante história de ficção científica repleta de referências do universo geek. Ambientada em 2044, num mundo caótico e miserável, seu enredo se desenvolve a partir da morte de James Halliday, o excêntrico criador do OASIS — um jogo online de múltiplos jogadores que aos poucos se transformou na realidade virtual mundialmente difundida, utilizado diariamente pela maioria das pessoas através de seus avatares —, que o tornara bilionário. Morreu aos 67 anos, sem familiares vivos e nenhum amigo. A notícia de sua morte veio acompanhada de uma mensagem em vídeo que havia feito para ser divulgada quando morresse pela imprensa mundial: dizia respeito a sua herança e abalou o mundo. Estabeleceu que a primeira pessoa a cumprir a condição por ele estipulada herdaria sua fortuna e empresa, bem como o controle do OASIS.

Para explicar tal condição, apresenta seu primeiro aparelho de videogame, que ganhou de Natal em 1979 — um Atari 2600, junto com seu jogo favorito, o Adventure:

"...Como muitos dos primeiros videogames, o Adventure era feito e programado por apenas uma pessoa. Mas, naquela época, a Atari não dava crédito a seus programadores pelo trabalho que realizavam, por isso o nome de um criador de jogos não aparecia na capa do jogo (...) . Então, o cara que criou o Adventure, chamado Warren Robinett, decidiu esconder seu nome dentro do próprio jogo. Escondeu uma chave em um dos labirintos. Quem encontrar essa chave, um ponto cinza do tamanho de um pixel, pode usá-la para entrar em uma sala secreta na qual Robinett escondeu o próprio nome. – No televisor, Halliday guia seu protagonista quadrado para dentro de uma sala secreta do jogo, na qual as palavras CRIADO POR WARREN ROBINETT aparecem no centro da tela. Isto foi o primeiro ovo de Páscoa de um videogame (...) A Atari produziu e vendeu o Adventure no mundo inteiro, sem saber da sala secreta [...] até alguns meses depois, quando crianças do mundo todo começaram a descobrir o que estava escondido. Eu era uma delas [...]" (páginas 13, 14)

Inspirado pelo ocorrido em Adventure, Halliday inseriu em seu próprio jogo um Easter Egg (desnecessariamente traduzido como ovo de Páscoa), de modo que o primeiro a encontrá-lo se tornará seu herdeiro. Para servir como guia, disponibilizou para download o Almanaque de Anorak — constituído por mais de mil páginas de seu diário, contendo observações a respeito de suas obsessões: videogames, filmes, histórias de ficção científica e fantasia, quadrinhos, seriados, animes, tokusatsus e cultura pop dos anos 1980 em geral. O desafio foi lançado e encontrar o ovo da Páscoa de Halliday se tornou uma fantasia popular mundial. Um novo estilo de vida surgiu e milhões de pessoas passaram a dedicar todo o seu tempo livre para pesquisar e procurar o ovo de Halliday: receberam o apelido de “caça-ovo”.

Após alguns anos de iniciada a Caça com intensa procura no OASIS (composto por milhares de planetas) nada foi encontrado. O público em geral perdeu o interesse pelo concurso e o Easter Egg de Halliday logo se tornou uma lenda urbana. Até que o jovem (e protagonista) Wade Watts consegue desvendar o primeiro enigma e tem o nome de seu avatar colocado em primeiro lugar no placar. O mundo então volta sua atenção para o jogo e a corrida desenfreada e definitiva em busca do lendário ovo de Halliday tem início — e muito mais do que a fortuna do falecido bilionário está em jogo. Uma grande empresa passa a investir massivamente na busca pelo ovo, utilizando de trapaças e visando, além do grande prêmio, lucrar monetizando o OASIS, limitando seu acesso à maior parte da população do planeta, que tem nele uma poderosa válvula de escape diante da terrível realidade: uma grande Crise de Energia Global que colocou a maioria das pessoas na pobreza.

Lançado no Brasil pela editora LeYa, o livro (Ready Player One, no original) é escrito em primeira pessoa e traz inúmeras boas referências — difícil não interromper a leitura para eventuais pesquisas. Não há previsão para continuações e a história se fecha com chave de ouro: uma batalha com robôs gigantes e Monty Python ajudam a tornar o final emocionante. Os direitos de adaptação já foram adquiridos pela Warner, que visa transformar o best-seller numa superprodução cinematográfica, com o roteiro também escrito pelo autor. Resta aguardar. Há potencial. 

Trailer do Livro:


3 comentários:

  1. Ein Maurílio! Interessante como o autor do livro combina os aspectos do mundo virtual e real,
    pois, pelo que observo, a busca pelo Easter Egg não se resume ao universo criado pelo jogo,
    mas também transcende ao desejo de fugir da realidade mórbida.
    Aliás acho que, num aspecto geek, o livro traduz algo muito peculiar da nossa atualidade!

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  2. Fiquei com vontade ir a livraria e comprar esse livro… muito boa a resenha.

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  3. Muito legal a resenha Maurilio! Postei ela na fan page www.facebook.com/JogadorNumero1

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