sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Mundo Diluído

Algo entalado em minha garganta
Impede-me de respirar
Mas o choro e os soluços não vêm
Deixando-me a pensar e pensar

Sempre me solidifico quando tudo ao redor derrete,
Mas em cenários sólidos costumo derreter. Não tem jeito.
Estar alheio às contingências da vida é tão inerente quanto viver.

Do alto da mais alta montanha observava a humanidade
Tão ocupada e caótica, triste e cansada,
Porque no fundo todos se cansam.

Tudo sempre me pareceu pouco e agora já não quero nada,
É preferível querer nada a nada querer. Sempre foi.

Raramente olhava externamente por muito tempo
Convivia com a insólita fusão de egocentrismo e introspecção
Conhece-te a ti mesmo: disse Sócrates, ou Jesus, ou alguém.
Quem se importa com uma frase forte na intenção jogada ao vento?

O ar rarefeito da montanha também cansa, mais que a solidão.
Nada como estar de volta à cidade, onde as coisas acontecem.
Carros e barulho e fumaça e pessoas pra lá e pra cá. 
O entardecer faz as luzes se destacarem conforme escurece. É bonito.
Ao caminhar pela calçada juro ter ouvido um solo de jazz.
Uma cena de um filme do Woody Allen.
Melhor ser protagonista em meu filme ou coadjuvante em minha vida?

Última cena: avisto no horizonte uma garotinha que vem correndo, cortando o vento.
Veste um vestido azul em forma de furacão,
Sei que não vou resistir ao cruzarmos na calçada. Serei levado.
Por que ela chora?
Seus olhos derretem fios de lágrimas que se misturam aos seus cabelos esvoaçantes.
Meu coração disparou. Vou explodir. Sou uma bomba: eu sabia!
Ao meu lado ela observava-me de soslaio. Já era.

A cidade começou a dissolver
Todas as suas cores e formas e barulhos fundiram-se numa curiosa substância que escorria incessantemente pelo ralo.
Os continentes já não eram sólidos e os oceanos não eram líquidos,
Ambos derreteram e ficaram indistinguíveis,
Ao invés de Terra o planeta podia ser Água. Tanto faz. Os sentidos das palavras também se desprenderam destas.
De repente todos os planetas, sóis e galáxias tinham se diluído no mar do Universo.
E dessa vez, mas só dessa vez, tudo pôde ser visto como de fato é: infinito.

2 comentários:

  1. Todo mundo que lê parece fazer força para se manter sólido, mas na última estrofe ninguém aguenta. Que seja...
    Devia fazer isso mais vezes.
    <3

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  2. Nossa! Sério demais... Me tocou em tantos sentidos, e eu que estava tentando me solidificar já não quero mais

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