sábado, 5 de janeiro de 2013

Praticamente aforismos [2]

11 — Certeza quantitativa

Por vivermos numa Democracia, que encontra na maioria numérica um de seus critérios norteadores, muitas pessoas passam a legitimar seus comportamentos, gostos e crenças com base na quantidade de seus respectivos adeptos. Se a maioria aprova deve ser bom. Aquilo em que todo mundo acredita com certeza é verdade. Nada como o incrível poder do homo sapiens de transformar seus devaneios mais insólitos em verdades absolutas — e por vezes metafísicas.

12 — Alternância do saber

O estudo consiste numa relação de amor, procrastinação e culpa, que giram necessariamente nessa ordem num ciclo interminável.

13 — Relatividade meritocrática

Não acho que cada povo tenha o governo que merece, tampouco que cada pessoa tenha a vida que merece; simplesmente não é uma questão de merecimento, mas de contingências. Uma série de fatores, mormente sociais, políticos e econômicos faz com que cada governo/sociedade/Estado se forme como tal. Individualmente, o fato de se nascer numa época/local onde haja democracia/autoritarismo, por exemplo, é mero fruto da aleatoriedade do acaso. No plano subjetivo, as possibilidades são inúmeras para todos, mas é evidente que a situação fática de cada um torne certas possibilidades mais suscetíveis para uns do que para outros, sendo o merecimento um pequeno fator nessa história toda.

14  Prolixidade jurídica

Uma parte considerável do extenso vocabulário dos juristas se resume em dizer a mesma coisa repetidamente de maneiras diferentes.

15 — Uma mentira conveniente

Enfrentar uma prova sem ter estudado o suficiente não denota preguiça, mas coragem e bravura — e claro que isso não é uma desculpa mental.

16 — Auto ignorância

A maior parte da visão de mundo de cada indivíduo, constituída por suas opiniões e posicionamentos acerca das mais variadas e substanciais questões, é formada sobretudo por lacunas, que costumam ser preenchidas com puro achismo.

17 — Ponderações prospectivas

Artista > Acadêmico > Burocrata
... < $ < $$$

18 — Uma consideração cyberpunk

Acordou numa manhã típica de 2113 ao som de seu despertador, que emitia alguma música pop chinesa, dessas exponencialmente exportadas para todo o mundo — parte do plano de dominação cultural daquele país. Percebendo que seu download havia acabado, alcançou a nuca com a mão direita e arrancou o cabo de transferência de dados, desconectando-se da internet. Certificou-se de ter baixado todo o conteúdo e percebeu que não tinha mesmo jeito: teria de aprender tudo aquilo da maneira antiga. Observou em seu quarto os livros espalhados pelo chão, todos de autores já há algum tempo não muito populares: Kierkegaard, Nietzsche, Fernando Pessoa, Schopenhauer, Sartre, Shakespeare, Freud... Ponderou o quanto foi inútil investir em tantos gigas de memória cerebral sendo que as informações que desejava implantar não funcionavam. Concluiu que ao menos ainda podia utilizar o espaço com todo o restante de coisas chatas, como matemática e cálculo, assuntos pelos quais não fazia ideia por que antigamente algumas pessoas se dedicavam.

19 — O kantiano apaixonado

Após receber inúmeras demonstrações de afeto da namorada e não conseguindo expressar-se de modo recíproco, quis sintetizar o quanto ela é importante numa só máxima. Encarou-a e exteriorizou seus mais profundos sentimentos: "Para mim você é um fim em si mesmo.”

20 — A eficiência da indiferente natureza

A observação de um inseto morto no canto da sala costuma ser proporcionada pela preguiça de removê-lo dali. Passado algum tempo volta-se a atenção para ele e percebe-o rodeado por formigas. Alguns instantes depois já não se pode mais vê-lo. Mais cruel do que o fato de que um dia você será o inseto é ter consciência disso.

Um comentário:

  1. Hahahaha

    Muito bom!
    Ah a natureza é mesmo uma vadia indiferente a todos. Mas acho que todo ser humano seja um fim em si mesmo... exceto, é claro, pelos cientistas do direito, que na verdade são um meio em uma ficção jurídica utópica, normatizada por postulados pseudo-científicos potestativamente regulamentados pelo leviatã estatal.

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