terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Religiosidade pós-moderna

— Ei, João, preciso ter uma conversa com você.
— Aconteceu algo?
— Sim. Sabemos que você é novo no grupo de jovens e que entrou esse ano na faculdade, mas seu comportamento não tem sido adequado com o que pregamos. Caso não haja uma mudança de atitude por sua parte teremos de...
— O que eu fiz?!
— Creio que saiba do que se trata.
— Não mesmo!
— No luau que fizemos na semana passada aqui no campus você teve uma atitude bastante estúpida ao ver um casal se beijando do outro lado do gramado.
— Ah! Aqueles viados?
— Um deles é presidente do centro acadêmico, e neste momento está numa reunião cuja pauta é a viabilidade de um grupo de caráter religioso  que no caso é o nosso  numa Universidade publica considerando o Estado ser Laico. Reze para que não cortem nossas verbas.
— Poxa, foi só uma brincadeira...
— No começo do ano você também teve uma atitude inadequada na reunião em que convidamos membros do grupo humanista. Lembra?
— Aquilo foi culpa das feministas que não entenderam meu ponto de vista!
— O que quer dizer com isso?
— Ora, eu não havia discordado sobre as mulheres conquistarem posições equivalentes às masculinas no mercado de trabalho, só me preocupa o fato de que isso possa se estender para outras áreas da vida.
— Oh Deus, dai-me paciência...
— Por quê? Vai me expulsar do grupo?
— Concordamos em te dar uma chance, João, mas sinceramente, não achei que fosse tão burro. E nem queria fazer o papel de tio chato que revela que papai Noel não existe, mas terei de lhe dizer qual é o negócio...
— Ah, mas isso eu já sei!
— Sabe?
— Sim, ouvi o Alexandre Frota dizer!
— Poxa João, desse jeito vai acabar perdendo a virgindade com uma caminhoneira!
— Melhor do que perder com o padre.
— ...
— Que foi?
— Acho que essa foi a coisa mais sensata que já te ouvi dizer.
— Hehe! Mas prefiro garotas delicadas, mesmo.
— E ainda não percebeu que o estereótipo de machão babaca já saiu de moda há algum tempo, João?
— Por que diz isso?
— É o que expressa com suas declarações, que podem acabar nos prejudicando. Por que acha que nosso grupo recebe menos verba do que o dos humanistas? Já não temos muita credibilidade sem nos comportarmos feito idiotas que se apegam a dogmas sem sentido, imagina se nos apegarmos.
— Como assim? Está tudo de acordo com a bíblia sagrada!
— O negócio é o seguinte: a maior parte do que está lá não deve ser seguido, tampouco aquilo corresponde à realidade.
— Esta dizendo que nosso livro sagrado é uma mentira?
— Não, mas também não estou dizendo que é verdade, entende?
— Acho que é o seu perfil herege que não corresponde ao grupo! Contarei a todos o que pensa!
— Não estou lhe dizendo nenhum segredo, João, todo mundo sabe. O que você não entendeu é que não estamos aqui para defender verdades, mas sim para promover um estilo de vida confortável e pleno à luz do Senhor Jesus.
— E de acordo com nosso Senhor só a união entre um homem e uma mulher tem valor para Deus. Além disso, não cabe à mulher dominar o papel de seu marido, devendo submissão a ele.
— Esse tipo de declaração só faz com que a sociedade nos veja como um bando de imbecis!
— Isso nunca foi dito nas reuniões, está mentindo!
— É claro, já está implícito, o grupo de jovens não é pra isso. O que acha das reuniões como são realizadas?
— Gosto muito, é um prazer!
— Pois então, é sempre agradável nos reunirmos entre irmãos, tocarmos violão, louvarmos o Senhor e essas coisas.
— Sim!
— E isso já basta. Por acaso você sabe como costumam ser as reuniões do grupo humanista?
— Não tenho ideia.
— Fui convidado a participar uma vez e estavam discutindo alguma coisa sobre a concepção nietzschiana de niilismo na pós-modernidade, ou algo assim.
— Argh! Parece horrível!
— Você nem imagina! Quer que eles nos incomodem com esse tipo de coisa?
— Claro que não! Malditos humanistas seculares...
— Então pare de implicar com os homossexuais e as feministas! Deixe-os em paz e eles nos deixarão em paz — ou ao menos nos acharão menos estúpidos. OK?!
— OK!
— Amém!

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