quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Sonho real

Já há alguns dias André sentia sua audição atenuada, acreditava que seu ouvido direito estava entupido, mas acostumou-se em ouvi-lo zunir durante as noites e em ter uma audição mais apurada de um lado que de outro. Até que numa sexta-feira não conseguia pegar no sono, e não era culpa de sua tradicional insônia, seu ouvido estava latejando e tinha a sensação de que alguma coisa muito grande queria sair lá de dentro. Estava quase amanhecendo quando foi até o hospital e após quase duas horas de espera o médico lhe chamou.

— Doutor, meu ouvido direito está estranho, nem consegui dormir esta noite.
— Vamos dar uma olhada.
Após um rápido exame concluiu:
— É apenas cera, rapaz. Muita cera.
— Tem como tirar?
— Terá de fazer uma lavagem de ouvido num otorrinolaringologista, ele possui os equipamentos próprios para a remoção da cera que está lhe incomodando.

Ao sair pediu para a secretária o número dos médicos especialistas, mas nenhum tinha horário disponível para o dia.
— Encontrar especialista atendendo em janeiro é complicado, hein, moço.
— Meu ouvido não escolhe data pra doer, hein, moça.
— Calma, não tem nenhum monstro aí dentro, moço.
— Tomara, moça. Adeus.

Voltou para casa, deitou-se, fechou os olhos e tentou dormir, mas não pôde. Seu ouvido gritava.

De repente uma quantidade imensa de cera começou a jorrar de seu ouvido direito, dando forma a algo que nunca tinha visto antes. André assustou-se ao ver uma espécie de dragão em seu quarto. Tinha uma cara débil que agora lhe fitava.

— O que é você...? — murmurou espantado.
— Sou da espécie dos monstros de cera — respondeu com uma voz forte e serena, incompatível com sua cara de retardado (que lembrava a do Barney do programa infantil, embora este fosse um dinossauro).
— Você... saiu do meu ouvido. Isso não faz sentido algum.
— Somos uma espécie rara e dificilmente temos a oportunidade de surgir no mundo tangível, portanto, obrigado.
— Mas por que de mim? Você é feito de cera? Como isso é possível?
— Uma série de fatores me possibilitou aparecer. Sou produto de seu subconsciente, resumindo.
— Como assim?

O monstro esticou os braços e balançou-os, fazendo com que as cores do ambiente mudassem. Nas paredes apareceram espadas e escudos medievais. André assustou-se ao notar que a decoração de seu quarto estava exatamente como planejara deixá-lo, mas nunca o fizera por preguiça.

— A parte consciente de cada pessoa é muito menor do que a inconsciente, que pode chegar ao infinito, como a sua, por exemplo, em função do seu nível de atividade mental. Assim como as coisas não tangíveis são muito maiores do que aquilo que costumamos considerar real. Sabia que mais de 90% de cada átomo é constituído por nada?
— Nada?
— Sim, espaço vazio. Basicamente sou feito de nada: atividades mentais, sonhos e tudo o que se passa pelo inconsciente — a princípio o seu, mas logo alcançarei o inconsciente coletivo da humanidade, se me alimentar e dormir bem... e ninguém me comer.
— Estou com insônia, então se quiser descansar pode usar a minha cama — ofereceu André, sem saber o que dizer.
— Vou aceitar, mas antes... — agarrou com força o humano à sua frente, abriu a boca colossal, deixando à mostra seus dentes afiados, e devorou-o em segundos.

Saciada sua fome, deitou-se.

Uma cama de humano — pensou — queria ter nascido humano, desfrutar desses confortos. Acho que esse quarto ficou legal assim, é, vou morar aqui, por enquanto...

De repente suas divagações foram interrompidas por uma forte dor no ouvido esquerdo, do qual uma enorme quantidade de cera começou a sair, dando origem a uma criatura semelhante, mas ainda maior, que se materializou ao seu lado.

— Um irmão, que agradável surpresa!

O monstro 2 lhe encarou por algum tempo, sem nada dizer. Ambos sabiam que o maior prazer de um monstro de cera é devorar seu progenitor. O que causava medo ao primeiro, e com razão. Em poucos segundos este teve sua cabeça arrancada e fora devorado.

De barriga cheia o monstro 2 não conseguia pensar em qualquer coisa. Estirou-se no chão do quarto e dormiu, até acordar com uma terrível coceira no ouvido esquerdo, que logo se transformou em dor, e logo originou o monstro 3. Ainda maior, este já não cabia no quarto. Depois de devorar o segundo teve de se deitar no quintal da casa para descansar. Não demorou a sentir seu ouvido esquerdo latejar, ver a cera sair, e um novo e maior monstro surgir.

Tal processo passou a se repetir interminavelmente, ad infinitum. O monstro 42 era do tamanho de grandes prédios e se parecia com aqueles que costumam aterrorizar o Japão, mas não foi detido por nenhum robô gigante. Os exércitos de todos os países se reuniram para destruir o monstro 51, mas foi em vão. Os últimos seres humanos foram extintos após o monstro 98 surgir; o monstro 150 tornou o planeta inabitável para qualquer forma de vida biológica, e o 198 já não cabia no planeta.

Num certo dia, o monstro 240 estava se divertindo pela imensidão do espaço, destruindo alguns corpos celestes, quando foi interrompido, não por uma dor de ouvido, mas por uma voz que ecoava soberana:

— Quem ousa destruir meu Universo?
— Quem está aí? — perguntou o monstro 240.

Um enorme monstro em forma de dragão do tamanho de um planeta se materializou diante de si.

— Um irmão por aqui, que legal!
— Não sou seu irmão, pobre criatura. Sou o criador de todas as coisas!
— Mas somos tão parecidos, veja!

Deus o encarou com perplexidade. Finalmente alguém havia descoberto seu segredo.

— Se disser pra alguém que sou um monstro de cera, te devoro sem pensar duas vezes!
— Vai ter que dividir comigo o controle do Universo.
— Fique com ele, criarei outro.

André acordou subitamente, transtornado. Percebeu que em toda sua vida jamais acordara de verdade. Ao menos seu ouvido direito já não doía. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário