terça-feira, 2 de julho de 2013

A Mulher de Areia (1964)

Aviso: há spoilers, o que é compreensível em se tratando de um filme com quase cinquenta anos, feito quando este termo sequer existia.

Lançado em 1964 e dirigido por Hiroshi Teshigahara, A Mulher de Areia é um dos filmes mais aclamados da década de 60, além de ser considerado um clássico da Nouvelle Vague japonesa. Nele acompanhamos a jornada de Niki Jumpei (Eiji Okada), um professor entomologista de Tóquio que chega a um pequeno vilarejo próximo ao mar com o objetivo de pesquisar insetos na praia, aproveitando assim os três dias que dispõe de folga. Ao perder o ônibus de volta, um morador local lhe sugere que se hospede por ali. Contente com a proposta, o professor é conduzido até um lugar inusitado: uma casa de madeira localizada no fundo de um grande poço de areia, no qual ele desce por uma escada de corda com a ajuda de alguns moradores da vila. Na casa frágil, apenas uma mulher (Kyōko Kishida), que lhe oferece comida e sacia sua fome. Ao amanhecer, quando sai de casa com a pretensão de continuar sua pesquisa, percebe que a escada pela qual desceu, antes ancorada no topo do fosso em que se encontra, já não está presente. Fora enganado.

A princípio ele não leva a sério sua situação. Pensa até que seria uma boa experiência sobre a qual poderia escrever quando voltasse. Estava certo de que após notarem sua ausência seus pares iriam encontrá-lo. Quando passa a sofrer pela privação de sua liberdade, culpa a mulher, tentando lhe forçar a tirá-lo dali, ressalta que está sofrendo um crime e a interroga se está satisfeita com a vida que leva, mas ela se limita a dizer que está em casa, sua família está enterrada naquele local e destaca que sua vida é muito dura para uma mulher sozinha. Ele logo passa a compartilhar de sua maior preocupação: a areia que os cerca, que insiste em escorrer inexoravelmente. Começa então a acompanhá-la em sua tarefa diária e exaustiva de remover a areia para que não sejam “engolidos” por ela juntos com a pequena casa. Um trabalho digno de Sísifo da mitologia grega, condenado a rolar uma pedra até o cume de uma montanha de novo e de novo infinitamente, que, tal como o mito, serve como uma metáfora existencial. Ela lhe explica que a areia salgada que retiram — puxada para cima pelos moradores locais através de cordas e baldes — é vendida ilegalmente, um dos aspectos realistas que sustentam a metáfora do filme. Num dado momento o protagonista pergunta à mulher: “Você retira a areia para viver ou vive para retirar a areia?”.

Ao contrário da mulher, o professor sente a necessidade de sistematizar o mundo natural ao seu redor: ordena os insetos que encontra e conta a passagem do tempo em seu relógio. Ele é um homem urbano, um cientista. Sua existência é validada por uma série de documentos, os quais memorizou. Com efeito, não tarda a perceber que a mulher não o quer apenas como ajudante em sua tarefa repetitiva e infindável, mas também como marido. A areia que desliza incessantemente vai se misturando à pele e ao suor dos dois personagens, que também se misturam em cenas lascivas repletas de closes. 

O protagonista vive o drama de um personagem kafkiano, na medida em que subitamente se encontra numa situação insólita para a qual não parece haver saída, sendo a areia, que escorre de forma assombrosa e inesquecível, o seu grande tormento. Inicialmente sua preocupação central está em catalogar um inseto raro e ter seu nome registrado num livro. Depois se preocupa em fugir, desejando retornar ao curso habitual de sua vida, onde enxerga a liberdade. E torcemos muito por sua fuga em todos os momentos de suspense, que acentuam o clima claustrofóbico e agonizante do filme. Por fim sua atenção se volta para uma nascente que encontra no “buraco” em que vive — ele fica feliz por resolver o problema da escassez de água. Mais do que se conformar com sua situação, vemos o protagonista adaptar-se a ela. Evidencia-se assim o imenso potencial do ser humano de se ajustar às diversas contingências da vida num filme marcante que permanece atual, pois suscita questionamentos universais e atemporais. 

Um comentário:

  1. Muito boa sua resenha, conseguiu me esclarecer alguns pontos do filme sobre o existencialismo =)

    ResponderExcluir