sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Fuga Virtual

Assim como a maioria das crianças e adolescentes, Lucas costuma passar grande parte de seu tempo na Internet. Mas ao contrário dos demais, ele não utiliza redes sociais ou serviços de mensagem. Seu vício está no OASIS: um imenso mundo online onde jogadores de todas as partes do planeta coexistem.

Trata-se de um jogo fantástico repleto de aventuras em que você interage com os demais através de seu avatar, cuja identidade costuma se misturar com a de seu usuário. O avatar de Lucas guarda certa semelhança com sua aparência: tem a pele demasiado branca, olhos negros e cabelos bagunçados, mas diverge quanto ao seu porte físico de garoto de 15 anos, mantendo o perfil de um cavaleiro medieval na faixa dos 30. Um avatar de aparência infantil dificilmente seria respeitado pelos demais jogadores. Tal como no mundo físico, no OASIS também há dinheiro — uma moeda única chamada $ Zcoins —, que pode ser utilizado na compra de uma infinidade de itens, úteis tanto para se subir de nível e progredir no jogo quanto para garantir status ao jogador, que pode dispor de seus bens virtuais da maneira que preferir.

Este mundo também acabou por desenvolver uma cultura própria, assimilada pelos diversos usuários: padrões éticos e morais costumam ser seguidos e muitas lendas são compartilhadas, como a lenda dos “Reis Demônio” — segundo o que dizem, essas criaturas assombrosas de nível altíssimo vagam pelo OASIS chamando por todos que encontram pela frente, embora não se saiba por que o fazem, é recomendado que, caso você se depare com um Rei Demônio, apenas ignore-o e siga em frente. Eles foram vistos por poucos jogadores, mas segundo relatos são criaturas inconfundíveis: ao seu redor circunda uma aura que distorce o jogo, deixando-o um pouco mais lento, ostentam na cabeça uma coroa brilhante, possuem asas de morcego e trajam uma longa veste negra que só deixa de fora o rosto, no qual exaltam um exuberante sorriso maligno com os dentes brancos e reluzentes à mostra.

Há dois anos Lucas dedicava-se intensamente à sua vida virtual no OASIS, orgulhando-se de seu nível 20, que embora ainda estivesse longe dos mais elevados, foi conquistado com muito esforço. Seus pais, que já haviam percebido o excesso de tempo que gastava jogando recluso em seu quarto, preocupavam-se com o vício do filho, sobretudo por sua desmotivação em estabelecer vínculos sociais fora do ambiente virtual. Até que, ao entrar no ensino médio, Lucas descobriu sua motivação: Sofia. Ficara sabendo que a colega de turma havia iniciado um jogo no OASIS e que já estava no nível 3. Primeiramente aproximou-se dela no ambiente virtual, sua avatar refletia sua aparência real e era quase tão linda quanto ela em pessoa: mantinha o perfil de uma elfa com longos cabelos loiros. Logo tornaram-se amigos e passaram a compartilhar de muitos momentos juntos, tanto no colégio quanto no OASIS, onde viviam grandes aventuras. Lucas estava completamente apaixonado por Sofia, mas não sabia exatamente o que fazer por nunca ter tido um relacionamento. Sua maior satisfação era ajudá-la no jogo, onde ela sentia-se protegida por andar com alguém de nível mais elevado. Certa vez Lucas presenteou sua avatar com um item que havia ganhado numa batalha; Sofia ficara tão grata que no dia seguinte, ao encontrá-lo no colégio, correu para lhe dar um abraço apertado. O coração de Lucas nunca bateu tão forte quanto naquele momento.

Já há algum tempo Lucas mantinha a seguinte rotina: levantava cedo para ir ao colégio, dormia durante a tarde e passava a noite e a madrugada imerso no OASIS, só tirando um breve cochilo antes de se levantar para o colégio. Para que seus pais não percebessem, equipara seu computador com um teclado e mouse que não faziam qualquer ruído. Eis a receita de seu sucesso.

Numa madrugada comum de quarta-feira, Lucas e Sofia conversavam enquanto caminhavam por uma floresta no OASIS. Como de costume, ela logo se despediu, pois precisava deslogar para ir dormir.

— Boa madrugada, bravo guerreiro!
— Bom sono, elfa destemida! Nos vemos amanhã?
— Sim, como sempre <3
— Beijos!

Na ausência da amada, Lucas continuou sua jornada sozinho. Ao avistar um castelo, pensou em visitá-lo e ver se encontrava algum desafio. “Derrotar o Mestre do Castelo pode me render alguns $ Zcoins”, pensou, e imediatamente se dirigiu até ele. De repente, no caminho, se deparou com algo que acreditava não passar de uma lenda: uma criatura das trevas que balançava suas asas asquerosas — tinha uma coroa de ouro na cabeça e esboçava um sorriso medonho e brilhante. “Só pode ser um Rei Demônio! Quem diria...”. A criatura logo tentou comunicação e uma caixa de diálogo apareceu na tela de Lucas, que ponderou durante algum tempo se abriria ou não. “Que mal pode haver? Pra tudo nesse jogo é preciso de consentimento, ele não pode ser nocivo”, e clicou em “sim” para ver o que o Rei lhe dizia.

“Ele está propondo uma troca”, observou. Decidiu perguntar-lhe o que teria a oferecer e foi surpreendido: uma armadura de ouro maciço apareceu na tela. Trata-se de um item raríssimo que vale mais do que tudo o que Lucas havia acumulado no OASIS desde que iniciara o jogo. Mas lendo a descrição percebeu que não poderia utilizá-la em seu avatar; era uma armadura feminina. Imediatamente lembrou-se de Sofia. “Se quando lhe presenteei com um item simples ela já ficou tão feliz e me abraçou daquele jeito, como reagiria ao ganhar um artefato desses...?”. Este seria sem dúvida um ótimo presente, mas Lucas sabia que seu valor estava muito além de tudo o que possuía. No mínimo teria de lhe entregar todos os seus itens e, embora compensasse pelo valor, sua jornada ficaria muito difícil sem alguns deles. Pensou no que poderia oferecer, mas antes que escolhesse algo uma proposta apareceu. Inusitadamente o Rei Demônio acessara seu arquivo e escolhera apenas um item, do qual Lucas sequer se lembrava, propondo-lhe a troca pela armadura. “Um item que nem utilizo por uma armadura como essa? É claro que aceito!”. Lucas não pensou duas vezes e clicou em “sim”, confirmando a permuta. Após alguns segundos de felicidade, teve uma sensação de completo vazio. E tudo que o cercava desapareceu.

De repente, se viu num ambiente estranhamente familiar, havia muitas árvores ao redor. Sentia-se diferente. Suas costas pesavam. Tinha náusea. Ao seu lado, jazia o corpo de um cavaleiro.

— Meu avatar! — exclamou.

“Mas se ele está ali...” — pensou enquanto levava a mão direita à cabeça, tocando um objeto metálico que não conseguiu remover. Olhou para baixo e percebeu-se de vestes negras. 

Uma sensação de desespero tomou-lhe conta. Se virava para todos os lados tentando encontrar uma resposta para o que estava vivendo. Olhou para cima e percebeu que havia algo além do céu azul: um menino de 15 anos o encarava do outro lado. “Sou eu!”, afirmou para si. Sim, era Lucas. Exceto pelo grande sorriso cínico que esboçava. De repente, não pôde mais vê-lo. Lucas desligou o computador e foi dormir. Finalmente estava livre daquele mundo.

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