quarta-feira, 20 de maio de 2015

Uma aula insólita

Numa cidade provinciana, habitada por pessoas com mentalidade provinciana, as novas ideias demoravam a chegar. Nesta cidade havia alguns colégios esquecidos pelo Poder Público. Eram em geral frequentados por estudantes desinteressados nas aulas, que por sua vez costumavam ser mesmo desinteressantes. E foi num desses colégios que algo extraordinário aconteceu.

Era quarta-feira de manhã, um dia normal de aula, quando a professora Rita começou a divagar, deixando a matéria de lado. Isso era bastante corriqueiro. Ela costumava falar da própria vida, fazer reflexões sobre questões atuais e ir emendando um assunto no outro até o sinal bater. Quem melhor do que os alunos para ouvir os dilemas pessoais do professor?

— Casamento homossexual, gays adotando crianças, meu Deus... onde este mundo vai parar? Tinham que proibir! — questionava a professora.

— A senhora acha que tinham que proibir as pessoas de serem gays ou de eles adotarem? — perguntou uma garota sentada na frente.
— Tudo bem por mim que eles tenham relação entre eles. São adultos e têm o livre arbítrio para fazer o que bem entenderem. Se escolhem viver em pecado, que assumam as consequências. Mas não podem impor a uma criança ter de crescer num ambiente desses.

Alguém no fundo da sala ergueu a mão, como quem quer falar. Era Henrique. Um “vish” foi proferido em uníssono pelos alunos.
Henrique só abria a boca na sala de aula para sacanear. Ele jamais praticou bullying ou abusou de seus colegas de sala; apenas os usava — eram sua plateia. Era com eles que testava suas piadas. Só dali a dez anos conheceria George Carlin, Jerry Seinfeld e aprenderia alguma coisa sobre fazer humor. Até lá, fazia suas graças amadoras, imaginando-se mais sagaz do que de fato era, apesar de ter algum talento.

— Mas, professora — disse Henrique — então para sermos justos teríamos que proibir as pessoas estúpidas de terem filhos.
— Como assim? — indagou a professora Rita, ríspida.
— Pessoas que usam argumentos como os da senhora. As crianças deveriam ser poupadas de tamanha estupidez.

Rita ficou irritada e não acreditou na ousadia do garoto.
— Deixa eu mostrar uma coisa pra vocês — respondeu procurando algo na bolsa, até que tirou um livro: Bíblia Sagrada, dizia a capa em letras douradas. — Segundo as escrituras, o estilo homossexual de vida não está correto — disse após folhear bastante e parar numa página, que grifou, e então o mostrou pra garota que estava na primeira carteira. Determinou que lesse e passasse ao colega de trás, até que todos tivessem lido.

Henrique enfiou a mão na mochila da colega ao lado e retirou um livro: Harry Potter e a Pedra Filosofal. Ele ergueu o livro e sorriu.
— Ei, professora, segundo este livro, Harry Potter e seus colegas aprendem a voar em vassouras numa aula. Não é isso que devia estar nos ensinando?

Houve um silêncio momentâneo, que foi quebrado por uma forte gargalhada vinda do corredor. Era o diretor Alberto que estava passando e, ao ouvir a conversa na sala, decidiu entrar.

Alberto era um homem culto e nada provinciano. Lia de tudo e estava sempre a par das últimas descobertas científicas, dos pensamentos filosóficos pós-modernos e das artes contemporâneas. Era um adepto do humanismo secular. Para Rita, havia uma seção do Inferno especialmente reservada a estes.

— Diretor, eu estava tentando passar alguns valores aos alunos quando Henrique foi bastante mal educado.
— Desculpe, professora — disse Alberto pousando a mão no ombro de Rita — mas dessa vez você perdeu.

A professora Rita ficou perplexa, com os olhos esbugalhados. Saiu da sala cambaleante e se arrastou pelo corredor feito um zumbi. Ao chegar ao pátio avistou uma zeladora varrendo, correu até ela e tomou-lhe a vassoura. Olhou ao redor e viu algumas crianças matando aula. Mostrou-lhes a língua de uma maneira assustadora. O diretor Alberto vinha em sua direção, preocupado, quando ela agarrou fortemente a vassoura, montou-a num salto e alçou voo. As crianças no pátio acenaram dando tchau. Rita nunca mais foi vista.

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